Memória de bolso
Dia
desses alguém pediu meu telefone. Travei. Percebi que não me lembrava qual era
o número, tentei uma, duas, três vezes e desisti. Abri a agenda do próprio
celular, passei o número, virei as costas e por horas não pude parar de pensar
no que havia acontecido. Onde é que foi parar minha memória naqueles minutos?
Me
veio à mente a cena de minha mãe pronunciando de imediato qualquer endereço,
telefone e aniversário dos parentes e amigos, sempre que eu perguntara quando
era apenas uma menina de dez anos de idade. Pouco mais de dez anos depois eu me
pergunto: cadê a memória?
Minha
mãe não é nenhuma senhora idosa de cabelos brancos, mas ela não cresceu com um Google sempre disponível, nem tomou nota
dos telefones com o celular no bolso. Tenho a recordação de sua agenda preta
guardada na gaveta da sala, onde provavelmente ainda está, e de sua memória
invejável, treinada a anotar cada telefone, endereço e aniversário com boas
lembranças, às vezes sem pressa alguma, com afeto, paciência.
Eu
sou da geração que pegou a mudança com tempo suficiente para aprendê-la e
incorporá-la. Ainda lembro da internet discada nos fins de semana e dos
vendedores de enciclopédias que visitavam minha escola ao menos duas vezes por
ano – onde será que eles estão? -, mas não me lembro do número do meu telefone.
Os
telefones, endereços, anotações, comemorações, aniversários dos melhores amigos,
lembrete para próxima festa... Tudo guardado em bits. No celular sempre a mão, no notebook guardado no quarto, no
e-mail de fácil acesso, na rede social mais próxima. Nas facilidades que a
tecnologia nos trouxe, nas lembranças que deixaram de ser construídas, na memória
que deixou de se exercitar. Tudo guardado em bits.
Agora
sinto uma ponta de inveja dos tempos da minha mãe, além de certa tristeza por
ter incorporado tão avidamente as mudanças comportamentais trazidas com os
benefícios tecnológicos. Não gosto de ter minhas memórias guardadas no bolso,
preferia ter que buscá-las na mente.
