Limpeza
A gente junta tanta coisa na
vida: cartas e papeis, fotos e brinquedos, amores e amigos, lembranças... A sensação
de que tudo isso é uma parte física da gente, um pedacinho da nossa construção,
é natural e inevitável.
E quando chega a hora de
juntar tudo, separar, escolher e jogar fora, dói. É como se precisássemos nos
descontruir, tirar uma peça, deixar-nos de lado, nos desarmar. Ai parece que a
gente retrocede. Será?
Desapego é a palavra, é
preciso praticá-lo! Mas como é difícil. Nem falar é fácil. Dói.
Hoje mexi nos armários, nas
caixas, nas figuras, nos brinquedos, nas cartas, nos amores, amigos, memórias.
Mexi comigo sem me programar. É assustador. A vontade de chorar não passa com os
minutos, a vontade de parar e voltar não passa com as horas, a vontade de ficar
me puxa. Mexer consigo mesmo é a barra mais pesada, a dose mais forte, a prova
mais difícil.
E quando chega a hora. Dói.
Por que acabou? Passou por
quê? Quem eu deixei pra trás? Quem eu resolvi levar? Por que o fiz? Por que não
fiz? Tem resposta?
Dói.
Mas ai você senta. Descansa.
Respira. Escreve. Repensa. Cai na real que se descontruir é necessário. Deixar
ir embora não é retroceder, é entender que a vida passa. Que alguns momentos –
bons e ruins – não merecem mais do que lembranças e sorrisos. Que os amores
deixaram de ser, aceite. Aceite que você já não conhece aqueles que um dia
chamou de amigos. É hora de desocupar espaço e dizer tchau.
Não dói mais.
