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"Seja imprevisível"

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Carla Scarpellini

sexta-feira, 22 de março de 2013

Limpeza


A gente junta tanta coisa na vida: cartas e papeis, fotos e brinquedos, amores e amigos, lembranças... A sensação de que tudo isso é uma parte física da gente, um pedacinho da nossa construção, é natural e inevitável.
E quando chega a hora de juntar tudo, separar, escolher e jogar fora, dói. É como se precisássemos nos descontruir, tirar uma peça, deixar-nos de lado, nos desarmar. Ai parece que a gente retrocede. Será?
Desapego é a palavra, é preciso praticá-lo! Mas como é difícil. Nem falar é fácil. Dói.
Hoje mexi nos armários, nas caixas, nas figuras, nos brinquedos, nas cartas, nos amores, amigos, memórias. Mexi comigo sem me programar. É assustador. A vontade de chorar não passa com os minutos, a vontade de parar e voltar não passa com as horas, a vontade de ficar me puxa. Mexer consigo mesmo é a barra mais pesada, a dose mais forte, a prova mais difícil.
E quando chega a hora. Dói.
Por que acabou? Passou por quê? Quem eu deixei pra trás? Quem eu resolvi levar? Por que o fiz? Por que não fiz? Tem resposta?
Dói.
Mas ai você senta. Descansa. Respira. Escreve. Repensa. Cai na real que se descontruir é necessário. Deixar ir embora não é retroceder, é entender que a vida passa. Que alguns momentos – bons e ruins – não merecem mais do que lembranças e sorrisos. Que os amores deixaram de ser, aceite. Aceite que você já não conhece aqueles que um dia chamou de amigos. É hora de desocupar espaço e dizer tchau.
Não dói mais.